quinta-feira, 31 de maio de 2012

Resenha do Livro “Os Corumbas”, de Amando Fontes




Apesar de pouco difundida, a literatura sergipana se mostra, persistentemente, como uma admirável fonte de produções ricas em seu conteúdo, e que podem facilmente ser utilizadas como um retrato de uma época. “Os Corumbas”, de Amando Fontes, se encaixa precisamente neste patamar, relatando de forma crua e consistente a realidade de toda uma geração sofrida que, para não se sujeitar de uma vez a miséria, se submetia a desumana realidade das fábricas de algodão recém construídas na Capital sergipana nas primeiras décadas do século XX.

O autor da obra, Amando Fontes, nasceu na cidade de Santos, São Paulo, em 15 de maio de 1899. Ainda bebê ficou órfão de pai, o que proporcionou o retorno da sua família a cidade de Aracaju/SE, de onde era originária. Ao decorrer da vida foi jornalista, advogado e deputado estadual. Residiu não somente na capital sergipana, tendo passagens nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba. Como romancista, escreveu apenas duas obras. Além de “Os Corumbas”, lançado em 1933, que recebeu vários elogios dos críticos da época, Fontes também possui publicado o livro “Rua Siriri”, menos conhecido em relação ao primeiro.

A história narrada em “Os Corumbas”, tem início com a união dos ainda jovens Geraldo Corumba e Josefa, que se conhecem em meio a Festa de São José, no interior do estado de Sergipe, de onde são oriundos. Apaixonam-se e por fim se casam. Os anos se passam, nascem os primeiros filhos e as primeiras dificuldades, forçando a família já constituída a realizar sua primeira fuga ante a miséria, se instalando no Engenho Ribeira, no município de Capela.

Longos anos se passam, mais filhos nascem, possuindo a família Corumba no total cinco filhos, sendo quatro moças e um rapaz. Com a baixa no preço do açúcar, as dificuldades voltam a assolar a casa de Geraldo e Sá Josefa. É nesse momento que surge a ideia da migração da família rumo a cidade de Aracaju, que prometia, com suas fábricas de tecido, uma vida melhor para todos. Mas, ao contrario do que foi planejada, a partida dos Corumbas para a capital sergipana trouxe somente sofrimento, separação, morte, vergonha e desilusão. 
 
         Estabelecidas em Sergipe entre o final do século XIX e o início do século XX, a Companhia Sergipana de Fiação e a Empresa Têxtil do Norte, conhecidas popularmente como Sergipana e Têxtil, fizeram resplandecer na cidade de Aracaju uma numerosa classe operária, que residia fora do “Quadrado de Pirro” da capital, nos bairros de S. Antônio, Carro Quebrado (hoje bairro São José), Fundição, Aribé, dentre outros. Nas descrições realizadas na obra de Amando Fontes, a maioria dos trabalhadores das fábricas era constituída de mulheres, que vinham de toda a parte do território sergipano: “Eram praieiros de São Cristóvão e Itaporanga; camponeses do Vaza- Barris, da Cotinguiba; sertanejos de Itabaiana e das Catingas (...)”(p.19) que “Iam em busca do pão negro. Um negro pão, que, a troco do trabalho, lhes forneciam as fábricas de Tecido” (p.18). 
 
          As longas jornadas de trabalho, o escasso salário, o abuso dos superiores, presentes no dia a dia da família Corumba, são um retrato do operariado da capital sergipana nas primeiras décadas do sec. XX. Por outro lado, poucos ousavam expor a sua insatisfação, com medo de perderem seus empregos, e com isso, a única fonte de renda. Fontes faz questão de acrescentar em seu livro a primeira greve estabelecida em Aracaju, que no final acarreta a deportação de vários revoltosos. Entre eles, estava um dos filhos de Gerado Corumba, Pedro, para a tristeza e amargura de toda a família.

         Um dos aspectos que chama mais a atenção em “Os Corumbas”, é exatamente a dispersão de todos os filhos da família. Além de Pedro, que foi arrancado do seio familiar devido aos seus ideais revolucionários, o leitor acompanha, por vezes aflito, o triste destino das outras quatro filhas do casal Geraldo e Josefa. Uma delas acaba morrendo devido à falta de condições que a família possuía em cuidar das suas enfermidades. As outras três, em busca de um amor, acabam “se perdendo”, isto é, perderam a virgindade, e com isso, a honra. Por fim não vêem outra alternativa a não ser ganhar a vida com a prostituição. 
 
         Podemos considerar a cidade de Aracaju como uma das protagonistas da obra de Amando Fontes. Por um momento, as descrições mostram uma cidade feia e cinzenta ante a imponência das chaminés das fabricas, a lama das ruas, e os trapos no qual os operários se vestem. Por outro lado vemos uma Aracaju ensolarada, com seus bondes e suas festas, feiras e procissões, hoje, em grande parte, extintas.

         Os Corumbas não é um livro que narra uma história feliz, nem muito menos de superação. É uma obra que expõe as mazelas de milhares de pessoas que, ao tentarem buscar uma vida melhor “na cidade grande”, acabaram por encontrar uma realidade tão miserável quanto à existente no interior. É uma obra que nos faz refletir o preço que muitos pagaram pelo progresso da capital sergipana, e que hoje dormem no mais profundo esquecimento.

Referências Bibliográficas:

FONTES, Amando. Os Corumbas- 22 edição. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1999. 

SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de História de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe/ CESAD 2010.

 

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